O libertar de emoções
Saudades de escrever atrás de um ecrã, onde ninguém me conhece, de agarrar num computador e escrever sobre o que quiser, sem ligar a críticas...!
Na adolescência criei um blog. Na altura era quase uma moda, toda a gente era escritor e todos tinham um blog. Na verdade, muitas foram as pessoas que encontraram aí o seu caminho, algumas até começaram carreiras e outras encontraram uma paixão... essa talvez tenha sido eu!
Na altura, recordo-me, comecei a encontrar uma paixão, uma paixão pela escrita. Ali, no meu blog, tinha um espaço onde podia escrever sobre tudo, tinha uma voz mesmo que atrás de um ecrã. Era quase como um diário digital, falava de amores e desamores, de amizades e desamizades, um pouco de tudo, até que comecei a encontrar um caminho, uma identidade, uma paixão! Mal eu sabia que algo me ia fazer desistir aos poucos daquilo que se estava a tornar parte de mim, essa paixão pela escrita. Muitas vezes escrevia porque estava em algum mood, algum sentimento, fosse ele alegre ou mais triste, pairava sobre mim e eu agarrava o computador e escrevia sem parar. Não ligava a virgulas, a pontos e a parágrafos, apenas queria libertar os meus sentimentos.
Até que um sentimento de dor provocado por uma perda se apoderou de mim e nunca mais fui a mesma pessoa! Deixei de me interessar pela escrita e um pouco pela vida! Passei a viver um dia de cada vez, a carregar uma nuvem negra de tristeza, e nunca mais fui a menina alegre e brincalhona que tinha sido até então. Deixei a escrita, porque deixei de libertar aquilo que sentia, oprimi os meus sentimentos e, com o tempo, quase que me esqueci daquilo que a escrita provocava em mim, desse espaço de liberdade e de libertação, onde um emaranhado de emoções ganhava voz. A minha voz!
Ironia do destino acabei por me formar em comunicação. Essa possibilidade nunca esteve nos meus planos, nem nos meus sonhos, mas hoje sei que encontrei o meu caminho e que sou feliz com o que fui construindo. E não foi fácil.
Ao longo da minha vida foram muitas as vezes que ouvi: “não vais chegar a lado nenhum” ou “com essa atitude nunca serás ninguém”. As pessoas viam em mim apenas uma pessoa silenciosa, diferente, aparentemente tímida! Estas palavras entraram na minha vida andava eu no 3º ciclo, acompanharam-me na universidade e terminaram num estágio curricular, quer dizer, não posso afirmar que terminaram, não sei o futuro, mas posso afirmar que nunca mais irão afetar-me como me afetaram até então. Carreguei estas frases ao longo de muitos anos e, confesso, elas teimavam em não sair da minha cabeça. Comecei a acreditar nelas quase como se tivesse sido eu a dizer a mim mesma. Como se fizessem parte do meu ADN. Não que estas frases me definam, mas por muitos e longos anos fizeram com que não acreditasse que seria capaz. E não, nem sempre fui a melhor, nem acho que o seja, mas vivo para que todos os dias seja um pouco melhor.
O passado ano foi uma aprendizagem para o mundo inteiro e tenho pena daqueles que nada conseguiram aprender. Senti o último ano como um desafio, aprendi imenso, principalmente aprendi muito sobre mim e sobre a nossa saúde mental.
Antes desta pandemia começar eu era uma recente mestre, cheia de sonhos e objetivos de vida, que acaba de ouvir pela “última” vez: “não serás ninguém”. Depois de desabar e de me levantar estava cheia de garra e de energia, tudo começava a endireitar-se. Algo de muito bom estava para vir, a minha vida ia mudar. E de repente, de um dia para o outro pum a minha vida deu cem passos para trás...
Quando as coisas ficaram difíceis não pensei duas vezes: fiz as malas, arregacei as mangas e fui fazer o que a família deve fazer, ajudar quem mais amamos (passado um ano digo-vos: fazia tudo de novo).
Durante cerca de quatro meses, a minha saúde mental esteve à prova, e não que tenha sido esta pandemia a mexer com ela, certo, mas não ajudou! No entanto, fez-me perceber muita coisa. Todo esse tempo fiquei longe da pessoa que melhor me conhece: a minha mãe. Ela que talvez tenha sofrido mais do que eu, teve de ficar esse tempo sem ver as filhas e a neta, que não é para me gabar, mas que somos a vida dela! E pior, através de uma tela de um telemóvel ia percebendo as nossas fraquezas e sofria sozinha. E ainda tinha de aturar os momentos dramáticos das filhas, que estavam a morar juntas novamente passado quase 17 anos (mana se estiveres a ler isto é bom que te sintas velha e que não venhas dizer que também estou), mal sei eu o quanto ela sofreria.
Paradoxalmente, o ano 2020 trouxe-me muito amor, vivi os meus dias durante quatro meses dedicados unicamente à minha sobrinha e foram os meses mais bonitos e alegres da minha vida! Aquela miúda traz ao de cima o melhor de cada um de nós e enche-nos de felicidade. Definitivamente trouxe-me uma maior aproximação com a minha irmã, que voltamos a aprender a viver juntas durante 24h, e não foi fácil, mas fui feliz. Discutimos como antigamente, rimos até chorar e ficamos acordadas até tarde a conversar, e que saudades eu tinha disso: de a chatear e não deixar dormir e, no dia seguinte, ser quase impossível aguentarmo-nos com o sono que tínhamos, saudades de inventar o que fazer e chegar ao final do dia e rir até chorar de termos sido tão idiotas, de refilar com ela só porque respirou, de abraçar mesmo que não fosse permitido, mas morávamos juntas e, por maior que fosse o risco, foram os melhores abraços dos últimos tempos... A minha irmã é um dos meus maiores portos de abrigo e nem ela sabe disso. Quando as coisas não estão fáceis é para ela que eu corro, tenho é uma forma diferente de o mostrar. Quando algo preocupa a minha irmã ou as coisas não estão tão fáceis, por mais que tente disfarçar, lamento informar já não tenho nove anos, por isso, sei quando as coisas não estão fáceis! Já eu, por mais que a minha irmã perceba que algo não está bem, talvez só a minha mãe o saiba verdadeiramente. Durante o último ano, penso que ela percebeu que havia algo errado, mas sem nunca me abandonar deu-me espaço porque sabia que teria de ser eu a chegar lá, teria de ser eu, por mim, a chegar a esse ponto! As insónias, os pesadelos que ela assistiu, o acordar a meio da noite, o pânico, a ansiedade e as dores corporais que acompanham este estado emocional, o soluçar e o choro. Foram muitos os sinais. Custou admitir e foi preciso um ano para o fazer: mãe, preciso de ajuda! Nenhuma mãe deveria passar por isto. Não sei o que ela sentiu quando o disse em voz alta, nem eu sei bem ainda o que sinto depois de assumir que não estava bem. E não, não foi o ano 2020 que o fez, esse ano só ajudou a perceber que algo não está certo. Porque ao olhar para trás foi um ano com mais sorte do que azar, a diferença é que tive demasiado tempo para parar e ter todos os pensamentos e sentimentos no meu cérebro, que não desliga nem por um segundo! Por melhor que a vida esteja agora, os fracassos, os nãos e a dor não nos deixam, se não falarmos deles.
Em tantas coisas que aconteceram na minha vida, precisei de dez anos para falar sobre a perda e o que sentia e carregava com ela, mesmo que tenha sido com a minha mãe, eu falei. Deitei cá para fora e no final disse: preciso de fazer isto com um profissional.
Sabendo que não é a melhor altura para iniciar este processo, pelo menos dei um primeiro passo. Tudo isto, para alertar que a nossa saúde mental é muito importante e que negligenciar é uma atitude muito perigosa, não devemos ignorar os sinais, mesmo que não sejam nossos! Se os identificarem em alguém que vos é próximo, não os ignorem. Não devemos ter vergonha de admitir que não estamos bem! É normal não estar bem! O que não é normal é não o admitir, é não admitir que precisámos de ajuda de profissionais para restabelecermos a nossa saúde e o nosso bem-estar emocional. Uma ida ao psicólogo ou ao psiquiatra deveria ser vista como uma ida ao dentista, se tratamos da nossa saúde oral porque não tratar da nossa saúde mental?
Por isso, falem nem que seja com a pessoa em quem mais confiam a vossa vida, falem e peçam ajuda!
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